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quarta-feira, 3 de junho de 2009

Seus medos e a garagem

No começo dessa semana enquanto eu estava indo ao inglês com painho e meu irmão, na garagem do prédio um senhor estava tendo uma crise. Ele deve ter uns cinquenta anos no máximo, mas chorava feito uma criança de cinco, e gritava: “não quero, não quero”. Eu tive pena, e não, não acho que sentir pena de alguém seja algo ruim como todos dizem, é apenas sensibilidade pelo outro, pior é a indiferença. Ele chorava e gritava tanto, parecia que os gritos vinham bem do fundo da alma, e eu fiquei me perguntando de que ele teria medo. Eu tenho medo, morro de medo todos os dias, aflições e angústias me perseguem, mas eu nunca chorei na garagem do prédio. Só no quarto, no banheiro, na cozinha e na sala. Eu tive pena. Nunca se pensa que um homem de cerca de cinquenta anos, casado e com filho, possa se dar ao luxo de chorar e gritar na garagem do próprio prédio. Mas esse chorou e gritou. Chorou e gritou como eu nunca fiz, apesar dos meus medos. De que será que ele tem medo? Talvez fosse disso que eu precisasse, chorar e gritar na garagem do prédio, só por um tempinho, só pra lavar a alma.

domingo, 17 de maio de 2009

Sorriso

Passei uns dez minutos encarando a tela do computador pensando no que eu escreveria. Tenho sim sobre o que escrever , sobre meu aperto no peito, mas não consegui entrar em detalhes. Só sei que dói, tudo dói. Perco minhas forças por um instante, queria poder ficar na cama o tempo todo. Estou fraca. Ontem contei tudo a uma amiga entre gargalhadas, realmente é melhor rir que chorar. Mas hoje já não sinto vontade de rir. E não, não sei se seria uma boa companhia hoje. Minha decepção é grande, ocupa todos os espaços. Mal tenho espaço pra ser eu mesma. Meu olhar muda, meu sorriso entorta. Não chorei, só ontem, de rir, mas sinto que elas estão aqui tentando a todo custo sair, ver o mundo daqui de fora. Você nem percebe, nem percebe que meu olhar mudou, ou se percebe, finge que não. Queria que fosses chato, grosso, antipático, um saco, só assim eu desencanaria de vez. Mas eu me apego a tudo de fofinho que fazes, mesmo que não seja o suficiente, lá estou eu com os olhinhos brilhando com um mero afago. Essas incertezas sempre me perseguem. E segundo "Ele Não Está Tão Afim de Você" eu deveria esquecer, cair na real, ele, definitivamente, não me quer. Mas então ele sorri, aquele sorrisinho peralta, de criança, e é aí que eu esqueço tudo.

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Expectativas

Eis aí o meu maior problema. Acreditar demais, esperar demais. Sempre quero que as coisas perdurem o suficiente, que elas permaneçam comigo da melhor forma, para eu aproveitá-las por inteiro. Mas isso raramente acontece comigo. As pessoas sempre passam rápido por mim. Ficam por um tempo, levam um pedaço meu e deixam um pedaço seu comigo. Mas nunca voltam para buscar tal pedaço. Nunca voltam. Tudo passa, e logo comigo que queria tanto reter as coisas, absorvê-las. Respirar os momentos bons, inalar amores, absorver amizades. Mas tudo passa, logo comigo que espero tanto. Espero tanto da vida, espero tanto de mim, espero tanto dos amores, amigos. Pensei em terminar de escrever falando que a solução para mim seria parar de sonhar, de esperar, de criar expectativa com algumas coisas que mal começaram. Mas não, esta não é a solução. Espero sim, espero o melhor da vida. E vou continuar assim. Quem sabe um dia alguém não decide ficar por aqui.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Batom rosa

Ontem, enquanto voltava do RPG, andando pela calçadinha, uma mulher me aborda perguntando: “ Você vai caminhar até o final?”, eu respondo que só vou um pouco mais adiante, e ela: “ Então vamos andar juntas.” Achei estranho, mas tudo bem. Lá fui eu andando com ela. Tinha 36 anos, cabelos mais loiros que tudo no mundo e um batom rosa. Devido ao batom rosa (sem preconceito algum) comecei a duvidar da sua sanidade. Ela falava todo o percurso, tendo eu tempo apenas para uns “éé, hmm, tens razão” de vez em quando. Ela falava sobre um acidente que ocorrera há uma semana, que queria por que queria saber o que acontecera ao garoto. Ela estava quase afirmando a existência de algo escabroso por trás do acidente. “ Tudo está muito estranho, ninguém comenta sobre o acidente. Será que ele morreu ou está no hospital? Será que ele se jogou embaixo do caminhão?” Não sabia responder nenhum daquelas perguntas. Depois o rumo da conversa mudou. “ Não sei aonde esse mundo vai parar. Todo mundo só quer saber de farrar, beber, drogar-se. Ainda bem que não nasci nesse tempo.”
Cheguei em frente a minha casa, e eu tive que dizer tchau e atravessar a rua. Ela me disse o nome duas vezes, mas eu não me lembro. Ela disse que foi um prazer me conhecer e que eu parecia uma bonequinha. Ao chegar em casa fiquei pensando que talvez o batom rosa não significasse necessariamente só loucura. Talvez fosse para disfarçar a solidão. Talvez ela estivesse querendo dizer tudo que ela disse pra alguém e não tivesse ninguém por perto. Talvez ela tenha sido, na verdade, corajosa. Será que se, algum dia, eu for tão sozinha quanto ela, terei coragem de abordar uma estranha e usar um batom rosa para aliviá-la um pouco?